segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gabriel.

Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: Ai de mim, se for amor, como atormenta.
– Gabriel García Márquez, “Memória de minhas putas tristes

domingo, 13 de novembro de 2011

Um Trem para Firenze.


Mamãe adora lembrar da Toscana. Toda vez que nos sentamos à mesa, todos juntos, no domingo, ela tem alguma observação a fazer. "Lembra, minha filha, de Veneza? Nem acredito que já estive lá. Tão lindo!"
Não sei se ela se incomoda por eu não expressar nada no rosto, quando ela fala.
Eu me lembro bem das viagens de trem, isso sim. De Pisa Para Florença, a que eu mais recordo. Minha desculpa era "Vou comprar água, vou ao banheiro", quando, na verdade, eu passeava do primeiro até o último vagão, da primeira classe, com pequenos quartos pra cada passageiro, até a última, onde os estudantes sentavam-se ou até deitavam-se no chão, com suas garrafas de vinho, uns por cima dos outros, conversando e rindo, duas garotas ocuparam o banheiro por horas.
Eu olhava pela janela. Plantações infinitas de girassóis. Isso sim eu achei que nunca veria algo mais bonito. Voltava a cabeça pra dentro do vagão com os olhos secos, e os fechava por segundos até que umedecessem novamente.
Retornei ao meu vagão, todos dormiam. Passei com dificuldade pelas pernas - apoiadas nas poltronas da frente - que descansavam da caminhada pela 'Piazza dei Miracoli'. Naquele momento eu só queria estar com uma pessoa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mais conflito do que certeza.

Ninguém é sensível, ninguém é bruto o tempo todo. Todas às vezes que tentam me colocar num desses estereótipos, eu fico angustiado, sabe? Porque não é verdade. A vida é plural e somos feitos de vários momentos. A construção da personalidade é feita desses instantes, dentro de impressões sobre o mundo que você tem a cada descoberta e, antes de qualquer coisa, eu tenho muito mais conflito do que certeza. Então, eu não posso me afirmar porra nenhuma…


M. Camelo

Por enquanto, nada.

Gostaria eu de ser estudante de psicologia(s). Não porque acho que tenho bons pensamentos e conselhos que poderiam ajudar outrem a desvendar suas mentes, não. Mas sim, pra (tentar) encontrar na ciência, as respostas pras minhas - só para as minhas - perguntas. Que nem são perguntas, mas perturbações. Egoísta.
             Como uma angústia pode simplesmente se desfazer dentro da minha cabeça, com remédios, com ajuda psiquiátrica, ou o que quer que seja, se é justamente a cabeça que ela habita? Quero dizer, se sem a minha cabeça, ela não existiria? O remédio pode me tirar o foco, pode me tirar a dor, e pode até me curar, mas não me faz esquecer. O pensamento naquilo que me aflige sempre estará, independentemente de eu tomar, ou, como sempre, ter esquecido de tomar aquelas pílulas brancas.
              Para mim, continua talvez, sem sentido. Mas, como a filha que obedece, estou de volta a elas, às que me prometem mas não cumprem, que posso dizer me que iludem, mas não me fazem esquecer.




Aqui eu te conto como vou, pra que não tenhas que perguntar.